Os Sagrados Corações

Celebramos, no início do mês, as festas dos Sagrados Coraçõeo de Jesus e de Maria. O texto bíblico teologicamente mais significativo sobre o Coração de Jesus está no evangelho de João 19,31-36: “Era o dia de preparação do sábado, e este seria solene. Para que os corpos não ficassem na cruz no sábado, os judeus pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas dos crucificados e os tirasse da cruz. Os soldados foram e quebraram as pernas, primeiro a um dos crucificados com ele e depois ao outro.  Chegando a Jesus, viram que estava morto. Por isso, não lhe quebraram as pernas,  mas um soldado golpeou-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água. ( Aquele que viu dá testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro; ele sabe que fala a verdade, para que vós, também, acrediteis.) Isto aconteceu para que se cumprisse a Escritura que diz: ‘Não quebrarão nenhum dos seus ossos’. E um outro texto da Escritura diz: ‘Olharão para aquele que traspassaram’”.

Os padres da Igreja viram no jorro de água e sangue do coração aberto de Cristo, o símbolo do Batismo e da Eucaristia, sacramentos pelos quais a Igreja, qual nova Eva, começa a ser e se fortalece no mundo. Esta cena foi vivida no Coração Imaculado da mãe, que estava de pé junto da cruz ( Jo 19,23-27). Assim podemos entender que a Igreja nasce do coração rasgado de Cristo morto e do coração vivo da mãe, que só ela sentiu aquela dor, cumprimento da profecia de Simeão: “quanto a ti, uma espada traspassará tua alma”. O que levou São Bernardo a dizer que nosso nascimento para a vida de filhos de Deus foi o parto doloroso de Maria. Maria é Mãe da Igreja. A afirmação do evangelista de que ao ouvir de Jesus: “eis aí tua mãe”, o discípulo amado “a recebeu em sua casa”( Jo 19,27), tem um sentido simbólico que vai muito além do sentido literal, como é próprio do estilo do evangelista João.

As palavras de Jesus querem significar que os filhos da Igreja são filhos de Maria e a ela são por Jesus confiados. É a ela que, por primeiro se dirige Jesus: “Mulher, eis aí teu filho”. É uma declaração e, ao mesmo tempo uma missão: “cuida dele”. Só depois diz ao discípulo: “eis a tua mãe”.É uma recomendação: “acolhe-a e recorre a ela”. Como não nos lembrarmos das bodas de Caná, quando ela pede ao Filho a salvação daquela festa de bodas! E ele (em tradução literal): “o que a mim e a ti, mulher, ainda não chegou a minha hora”. Mas fez o milagre. E quando chegou a hora – a cruz – revela-se plenamente o sentido da pergunta de Jesus: “o que a mim e a ti, mulher?” A razão da vinda de Jesus a este mundo se mostra na sua hora: “Pai, é chegada a hora, glorifica teu Filho para que teu Filho te glorifique, e que pelo poder que lhe deste sobre toda a carne, ele dê a vida eterna a todos que lhe deste”(Jo 17,1-2). Esta é também a hora de Maria.

Entre Ele e Ela existe uma relação profunda, um vínculo divino, selado pelo Espírito Santo, desde o dia da anunciação, quando ela se entregou totalmente ao desígnio do Pai. Quando ela está ao pé da Cruz,  o vínculo, que no decorrer dos anos, se aprofundara entre Ele e Ela, revela seu sentido pleno: ela vive em sua alma, em seu Coração Imaculado, a entrega que Jesus faz de si mesmo ao Pai.  E nós nascemos para Deus da oferenda de Jesus à qual Maria está associada de modo singular. Sim, ela é nossa mãe na ordem da graça. Irmão, Irmã, somos todos filhos de Maria. Nascemos do Coração de Jesus e do Coração de Maria para a vida de filhos(as) de Deus. Maria é a primeira remida, por preservação do pecado, para poder ser cooperadora singular da redenção de todos nós. Não houve nenhum movimento do Coração de Jesus, que não tivesse sido acompanhado pelo coração da Mãe. Por isso não posso jamais me esquecer dos dois quadros na sala de minha casa onde, como diante de um sacrário, à luz da lamparina de querosene, nossa família se reunia, ao anoitecrer, para rezar o terço. Do lado direito, Ele; do lado esquerdo, Ela. Na Trindade Santa existe também um coração: o Espírito Santo.

Ele plasmou sob o coração de Maria, em seu ventre puríssimo, o Coração de Jesus. Essa proximidade dos dois corações se consuma ao pé da Cruz e se prolonga eternidade adentro e nós bebemos sempre de novo desta fonte de infinito amor. Assim se cumpre em nós a profecia de Ezequiel: “Eu vos darei um coração novo e porei em vós um espírito novo. Removerei de vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne”(Ez 36,26). O Espírito Santo, Coração de Deus Pai e de Deus Filho, foi dado à Igreja, com Maria unida aos discípulos em oração, para que nossos corações pudessem arder de infinito amor e nos tornássemos “um só coração e uma só alma”(cf. At 4,32). Termino com uma das súplicas da Ladainha do Coração de Jesus: “Coração de Jesus, fornalha ardente de caridade, tende piedade de nós.”

Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues
Arcebispo de Sorocaba - SP

Fonte: CNBB

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